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29.9.16

Shimon Peres



Foi controverso, como não poderia deixar de ser alguém que quisesse ser simultaneamente relevante para os israelitas e ator de uma paz que ainda não se conseguiu no Médio Oriente. 
Arriscou tudo pelo que pensava, sem nunca se deixar isolar dos que representava, os israelitas, algo que muitos visionários esquecem. E lembrava-o com veemência e humor a quem o queria levar para mares não navegáveis por alguém na sua condição.
Deve ter sido a pessoa que mais planos de paz e soluções políticas imaginou e tentou por em prática para uma paz justa para Israel e a Palestina.
Com ele morre a última referência israelita  atual para quem acredita que todos podem viver em paz com um Estado de Israel em segurança e o direito do povo palestiniano à sua nação reconhecido.
Diz-se muitas vezes que a história não se faz de indivíduos, mas há indivíduos cuja falta a muda. É o caso de Peres. 
Infelizmente deixa Israel mais longe da paz e a Palestina mais longe do convívio entre povos e nações do que já esteve. 
Mas a história tem muitas esquinas e alguém há-de surgir que perceba o que Peres percebeu há décadas e tenha a força entre os israelitas que hoje falta a quem defende as suas ideias.
Há homens insubstituíveis. Mas, mesmo que ninguém os substitua, o seu legado deixa sementes que podem voltar a germinar.  Oxalá assim seja rapidamente.

11.6.16

"É sempre possível esperar e fazer uma nova revolta dos escravos"

Chega mais uma das notícias que preferia não ter tido. Fui aluno e depois colega de Paquete de Oliveira . Reparo agora que passaram 30 anos desde as suas aulas de Sociologia da Comunicação.
Nesses anos de um ISCTE ainda muito movimento e pouco instituição (tudo ao contrário do que é hoje), o Professor animava as mais divertidas experiências de cruzamento entre ciências sociais, pedagogia e cultura. Lembro-me dele a apoiar músicas alternativas de que nunca soube se gostava, como com os trabalhos do João Peste ou as discussões com o Jorge Ferraz. A entrevista ao João Peste sobre as novas ditaduras culturais continua a ser um exemplo de democracia, cultura e sociologia e foi na época da minha juventude um elemento de referência sobre como me via como futuro sociólogo e sempre cidadão.
O Paquete foi um mestre, daqueles que conhecemos como muito diferentes de nós e muito iguais, enquanto seres humanos completos. As jornadas de comunicação que animava no ISCTE eram encontros com sociologias muito diferentes das que por lá preponderavam e momentos de academia no melhor sentido do cruzamento de todas as experiências. Lá fui também, uma vez com colegas, ainda aluno, mostrar um dos trabalhos de curso ao lado dos académicos. O que se aprendia com essas jornadas de ciência que eram pedagogia em acção.
No Natal de 1986, encorajado por ele, percorri os circos que actuavam em Lisboa e, depois, fui falar com as linhagens do circo, ver as histórias daquele grupo social, dos irmãos Chen à família Cardinali, com passagem pela aldeia de roulottes que então existia em Carnide. Na sua Sociologia da Comunicação, entusiasmava a cruzar a reflexão sobre estética e comunicação com análise social, sem primarismos de determinismos marxistas nem ignorância sobre poder e classes. Afinal, o projecto de sociologia em que continuei a rever-me.
Só depois de ser aluno dele conheci bem a sua biografia. Ajudou a entender a sua tranquilidade com a vida e o modo como convivia com inquietações sociais profundas.
Nem todos têm o privilégio de aprender com pessoas assim.
Nos últimos trinta anos, ouvi-o, vi-o e li-o. Muitas vezes discordei, mas reconheci sempre que continuava o seu projecto de procurar melhor democracia, melhor comunicação e mais compreensão social dos fenómenos contemporâneos.
Os media precisam desesperadamente de pessoas assim. A sociedade democrática precisa desesperadamente de pessoas assim.
Acho que a última vez que o vi foi num cenário altamente improvável para o encontrar, não por ele, que lá ia muito, mas por mim, que não sou dado a estádios. Foi no Sporting-Porto, no Alvalade XXI. Na entrevista ao João Peste, quase no fim dizia "o futuro, qual será o futuro, pergunto-me (...) é sempre possível esperar e fazer uma nova revolta dos escravos, por isso eu confio no futuro. Se a ditadura cultural é uma ameaça, é sempre possível realizar a sua derrota."