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28.6.16

A melhor escola é a que mais reprova, não a que melhor ensina

Os neoelitistas na educação nunca aceitaram que a escola é para todos. e não há melhor símbolo dessa rejeição de educar alguns que afirmar simbolicamente a superioridade das retenções, que impõem às criança desde cedo o estigma da incapacidade e põem sobre elas o ónus de uma não progressão na aprendizagem que reside em muitos outros sítios: numa escola que não se organiza para se adaptar às diferenças, numa pedagogia que não consegue integrar dificuldades de aprendizagem, num clima escolar que não estimula suficientemente o trabalho dos alunos, nos pressupostos de que do lado de lá da escola estão famílias teóricas muito diferentes das reais, etc.
Portugal continua a reter muito. Até os neoelitistas são forçados a reconhecê-lo. A doutrina oficial evoluiu há algum tempo e bem para que a retenção deve ser excecional, a medida última depois de todas as medidas que promovem o sucesso educativo falharem repetidamente. Mas a escola continua  a conviver bem com o insucesso prolongado. Continua a "arrumar" os alunos nas suas notas negativas e a dar com essa classificação a orientação simbólica de que os neoelitistas necessitam para fazer progredir a sua agenda.

O que nós sabemos por notícias como esta do Público não é a dificuldade que a escola tem para educar os seus alunos, não é nenhuma investigação sobre o que leva a que haja alunos com insucesso generalizado (com muitas notas negativas) ou o que faz a escola para combater ou mitigar sequer essa situação. 
O que é considerado notícia e relevante é que há uns alunos que progridem com muitas negativas e que isso "não motiva os alunos". Presume-se que os motivaria mais ficar retidos. Ou será em outros que não os retidos que o pai a que o Público dá voz está a pensar? Os que a escola premeia que se sentem não suficientemente privilegiados por os que têm dificuldades os acompanharem numa escola que lhes começa a ensinar as hierarquias sociais muito cedo.
Já me confrontei há uns anos com essa reacção em casa. E não foi difícil explicar a uma criança que os seus colegas com maus resultados necessitam de ser apoiados e não de ser separados dos colegas e discriminados pelos amigos, colocados com crianças mais novas como se de um castigo se tratasse. Mas fiquei com muitas dúvidas que alguns professores passem esta mensagem e certo que muitos pais a não incorporaram.
Para mim, a notícia é que em Portugal a escola continua a não conseguir ensinar demasiadas crianças.
Mas a notícia para os neo elitistas é sempre que muitas crianças que não aprendem não são devidamente castigadas.
Afinal, para a linha editorial do Público sobre educação, que é a dos neoelitistas,o lema é o inverso de um slogan estudantil do PREC. A melhor escola é a que mais reprova, não a que melhor ensina.

28.5.16

Contratos de associação, ensino público, ensino privado e concorrência

O parecer do Conselho Consultivo da PGR sobre os contratos de associação (obrigado Alexandre Rosa  por teres feito chegar) põe a discussão juridicamente no sítio onde também devia estar politicamente.
Os contratos de associação são para desenvolver educação pública, logo não se justificam onde ela existe. Mantendo-se nas zonas em que ela existe distorceriam a concorrência entre escolas privadas subsidiadas e não subsidiadas (e não entre privadas e públicas).
Se politicamente este ou outro governo entender apoiar o ensino privado no ensino básico e secundário não está proibido de o fazer. Aliás já o faz há décadas no ensino profissional, por exemplo. Mas teriam esses apoios que ser geridos com concursos abertos que nada têm a ver com estes contratos. E garantissem igualdade de acesso entre concorrentes.
Separemos a manipulação dos contratos de associação para financiar alguns colégios da possível política de cooperação entre Estado e ensino privado. Onde e quando se entender que ela deve existir, haja concursos abertos e concorrência sã.