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12.7.16

Para lá desta multa

Os Ministros das Finanças europeus hoje disseram aos mercados que Portugal deve ser punido na Europa porque não cumpriu um objectivo de défice de 2,5% do PIB em 2015, tendo atingido os 3% se não contarmos as medidas excepcionais devidas ao caso do BANIF.
O anterior governo é acusado de ter interrompido a redução do ajustamento estrutural potencial em 2015.
Ou seja, o bom aluno da União Europeia é acusado de não ter reflectido suficientemente em austeridade a evolução económica.
É certo que o anterior governo, na sua estratégia de ir além da troika debilitou o país de uma forma que tornou cada vez mais difícil cumprir as metas a que se comprometia e falhou até as metas do défice.
Mas também é verdade que o sentido desta deliberação dos Ministros é o de punir qualquer política que se foque no crescimento e no emprego.
Por isso, ou os chefes de Estado demonstram uma abertura a uma estratégia alternativa que os Ministros das Finanças manifestamente hostilizam, ou está é a primeira de mais más notícias.
Eu sou pessimista, mas espero que no fim tenham razão os optimistas.

24.6.16

Uma lição amarga de soberania popular

Só vejo um sinal positivo em todo o processo do referendo do Reino Unido. David Cameron não tentou fazer o que várias vezes aconteceu antes em referendos europeus e deixou claro que as decisões do povo devem ter consequências, em vez de tentar forçar qualquer mecanismo para a corrigir.
O discurso desta manhã do Primeiro-Ministro britânico é o de um derrotado. Mas de um derrotado que não tenta travestir a sua derrota.
A União Europeia entrou hoje numa nova fase da sua existência. Pela primeira vez na sua história um povo que a conheceu decide sair dela. Não decide recusar um tratado ou um novo passo institucional. Decide abandonar o sonho europeu.
E tudo aponta para que esta é uma decisão que segue uma tendência de o eleitorado popular abandonar os líderes políticos tradicionais, de direita e de esquerda, bem como de se desconectar do sentimento político das elites.
Por todo o lado, os sintomas são diferentes, mas a doença democrática é a mesma. O sistema político democrático não consegue agora captar o apoio popular, porventura, porque age cada vez mais condicionado pela necessidade de captar outros interesses.
A ideia de que o Reino Inido tinha que ficar na União Europeia por causa da economia parecia fraca e foi.
O eleitorado não votou com a carteira, ao contrário do que se costuma dizer que faz nas decisões importantes. Não votou assim na Inglaterra nem na Escócia, recorde-se, embora tenha votado de forma diferente em cada parte do Reino chamado Unido.
O Reino desunido que vimos neste referendo vai passar por uma longa turbulência política. Mas, por muito que discorde do veredicto dos britânicos, eles voltaram a dar à Europa uma lição de soberania popular. Algo que em Bruxelas se não percebe o que é. E essa incompreensão é uma parte muito substancial dos problemas que a Europa atravessa.

29.3.16

Zygmunt Bauman sobre a Europa e o terrorismo

Zygmunt Bauman sobre a Europa e o terrorismo . A Few Comments On The Mis-Imagined War On Terrorism.
(...) In direct opposition to Victor Orban’s infamous oracle, “All terrorists are immigrants”, almost all terrorists operating on the European stage are home grown. The most crafty, shrewd and malevolent schemers, who concoct and command or solicit the successive terrorist acts from the safety of their far-away homes, may live in foreign countries – but their foot soldiers are recruited from among the deprived, discriminated against, humiliated, embittered and vengeful local youth facing – again with our direct or indirect, deliberate or flowing from neglect help – their prospectless future. Keeping them in that state of deprivation is how social problems yearning for social action are transmogrified into security problems calling for military responses; this is perhaps the principal way in which our authorities cooperate with terrorists: by following the eye-for-eye rule instead of taking a higher moral ground combined with a radical as much as a long-term perspective, we continue to widen the recruiting area which the terrorist commanders are all too eager to deploy in full.
Most wars segregate combatants into winners and losers, triumphant and defeated. For that one reason our battle with terrorism cannot be classified into the category of wars. From this battle none of the sides (except perhaps the producers, sellers and smugglers of murderous weapons) may emerge victorious. The global arms trade – given in practice, if not in theory, a free ride, and guided by the lucre-greed of weapons merchants in cahoots with governments greedy for rising rates of GDP – has by now transformed the planet into a minefield, of which we know that explosions must happen there in a first awkward move but we can’t predict where and when an explosion will happen. Weapons ready for criminal uses are abundantly available (and as Anton Chekhov instructed budding realist play writers – “if there is a rifle hanging on the wall in the first act of a play, it must be discharged in the third”). Selection of targets is, after all, determined by the firing appliance at hand.