26.10.18

As memórias e o erro fatal de Cavaco Silva

Ao contrário de outros, nada me incomoda que Cavaco Silva escreva memórias. Acho este estilo literário interessante, aliás. Ele tem razão, quando acha que é um exercício banal de grandes estadistas. Mas, se a profundeza das suas análises está fielmente retratada nas notícias que vão saindo sobre o conteúdo, parece que as dele expõem mais um amador da psicologia dos livros de auto-ajuda, obcecado com comportamentos situacionais e tiques dos interlocutores, em que sobressaem a auto-confianca ou a humildade,do que um homem de Estado, capaz de perceber e interpretar grandes desígnios e prever e antecipar caminhos.
Se a leitura confirmar a primeira impressão, obtida dos excertos dos media, então as memórias de Cavaco caem na categoria de observações triviais de homens de estado banais. Farão as delícias dos pescadores de fofoca e nada acrescentarão de relevante aos que quiserem interpretar o momento histórico em que foram produzidas.
Mas a entrevista em que Cavaco Silva diz que não se apercebeu de quanto o entendimento político PS, BE e PCP era viável, vale por tudo o que ele possa escrever sobre a interpretação do que se estava a passar. António Costa tinha anunciado o fim do arco da governação há muito, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa tinham dito em plena campanha que as divergências não impediam a construção de alternativas. Costa tinha anunciado que não se comprometia com a viabilização de um orçamento minoritário do PSD-CDS. Cavaco não acreditou em nada disto é não percebeu o que significava? . Devia estar fixado a interpretar um vinco no rosto ou um sorriso estranho no rosto das personagens que faziam tais afirmações políticas. E isso impediu-o de ver o que de facto estava a acontecer.
Se alguma coisa tem importância histórica no que já sei sobre estas memórias é que o erro fatal de Cavaco demonstra a sua incapacidade de leitura política. Fica a curiosidade, uma pergunta às memórias, que espero ver respondida quando as ler ou em alguma entrevista complementar ao memorialista: a sua casa civil sabia de como evoluía a esquerda? Informou-o, enganou-o ou foi mantida na ignorância? Escondeu, mentiu ou não era capaz de fazer o seu trabalho na ligação aos partidos? E os políticos com quem falou, mentiram-lhe ou ele achou que sabia melhor que eles o que eles defendiam para Portugal naquele momento? O que dirá a resposta a estas perguntas do Presidente e de quem com ele trabalhava?
A Cavaco pode interessar muito a auto-confiança de António Costa, eu tenho curiosidade pelo erro fatal de Cavaco, que precipitou, felizmente, a possibilidade de uma convergência de esquerda que correspondeu ao sentido político do voto dos portugueses, como alguns viram logo e a posteriori se verifica com facilidade.

25.9.18

Os problemas do círculo entre os fala-barato e jornalismo de orelha a teclado

É boa prática esta de O Observador reconhecer que errou. Mas a devolução que faz da responsabilidade pelo erro para as suas fontes, levanta questões. Atente-se na frase seguinte: as fontes “várias, judiciais e políticas, todas elas bem colocadas (...) falaram ao Observador de boa fé. Simplesmente, julgavam ser portadoras de informações que não conheciam na totalidade.”
É bonito que o jornalista seja simpático para com as suas fontes “de boa fé”, ao mesmo tempo que lhes denuncia a leviandade. 

Esta confissão é um retrato de um problema importante a afetar fontes e jornalistas. Num círculo de fala-barato e jornalismo de orelha a teclado, a verdade é muitas vezes prejudicada.  Com esse círculo vicioso não saem prejudicados só os profissionais e os visados. Saem também os jornalistas, a justiça e a própria democracia.