21.5.19

O dia do triunfo do absurdo


No dia 21 de maio de 2003 o absurdo triunfou sobre a minha vida.
Foram precisos quinze anos, as várias instâncias judiciais portuguesas e a proteção da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, para que pudesse finalmente triunfar eu sobre esse triunfo do absurdo, que se materializou na decisão de me prender por crimes que não cometi, recorrendo a indícios que o não eram, negando-me o acesso aos meios de prova que permitissem refutar as imputações que me eram feitas.
No fim fez-se justiça. Mas não sei sobre quantas pessoas o mesmo tipo de absurdo que transformou a minha vida numa outra vida, também minha, mas não a mesma, vai triunfar hoje.

No primeiro 21 de maio em que podia ter o privilégio de esquecer senti, pelo contrário, o dever de lembrar.
O dever de lembrar que no modo como agiram os magistrados concretos do Ministério Público que pediram a minha prisão e o juíz específico de instrução criminal que me prendeu houve uma distorção do seu papel face ao que o nosso ordenamento jurídico lhes contempla a que nunca o sistema judicial deu atenção. Acredito até que nenhum deles tivesse à partida nada de pessoal contra mim, o que quer dizer que foi a sua própria identidade pessoal e profissional que os conduziu e não é mais tranquilizador.
O dever de lembrar os que lutaram comigo pela reposição da verdade. Acho que nunca lhes agradeci de modo apropriado a escolha de, nesse dia e nos dias, meses e anos que se lhe seguiram, não olhar para o lado ou esquecer. Penso nelas e neles como exemplo, pergunto-me todos os dias se terei sempre a coragem cívica e a solidariedade humana que elas e eles tiveram e prometo a mim próprio seguir-lhes os passos.
Mas também o dever de lembrar as pessoas que conheci na prisão e que apenas tinham em comum o facto de serem dignos de respeito num contexto em que esse respeito pode facilmente faltar-lhes. Conheci, na experiência de vida que o dia absurdo me proporcionou, a humanidade em condições mais extremas do que em toda a minha vida anterior e posterior, incluindo casos perturbadores de anomia, distorção dos valores e degradação humana. Vi mais de perto do que algum dia julguei ver as causas distantes e as próximas do crime e não apenas os disfunciamentos da justiça. Percebi quanto longe estamos de uma boa sociedade.
Desse dia lembro também que, quando o absurdo reina, a humanidade se lhe contrapõe nos pequenos gestos, como o dos polícias que me permitiram ver com eles parte do jogo do triunfo do Futebol Clube do Porto em Sevilha enquanto esperava a retoma do interrogatório.

É inultrapassavelmente verdade que a justiça é humana e há-de sempre ser vulnerável ao erro. Mas não esqueçamos nunca a parte seguinte da frase de São Agostinho, que acrescenta que persistir no erro já é diabólico.
Gostava de acreditar que a justiça dá hoje em Portugal garantias de que tudo fará para que mais ninguém viva o dia do triunfo do absurdo sobre a sua vida. Poderia então esquecer o dia 21 de maio ou recordá-lo pelo golo do Derlei.

10 comentários:

jpt disse...

É tudo passado, felizmente. Para ti. Para mim também. Sinto-me livre para te "pontapear" pelas razões mais do que óbvias. Que nada têm a ver com este absurdo.

Maria Isabel Guedes Loureiro disse...

Paulo Pedroso, não o conheço pessoalmente mas sempre tive por si grande admiração. Qualquer coisa me disse que a história não podia ser aquela e que,se assim fosse - se a história não era aquela de que foi acusado - realmente a tragédia do absurdo tinha-se abatido sobre si e que a qualquer um de nós poderia também acontecer.
Pode crer que me sinto algo aliviada por poder escrever este texto que, espero, lhe chegue.
Acho importante que faça lembrar que o absurdo pode acontecer. E que apareça em público para mostrar a pessoa que é e o que tem para dar ao mundo.
Um abraço.
Isabel Loureiro

ANTONINA disse...

Estava no ISCTE nesse dia, num átrio da parte nova, acho que era a última aula do Prof. João Freire...já não ia lá há anos. A televisão ligada...e esse teu rosto, as lágrimas a teimarem, a incredulidade. Como destruíram o caminho que tinhas pela frente!!
Um abraço forte Paulo. Saudades. Beijos.

CLEAL disse...

Com a amizade que me liga ao Paulo Pedroso li as suas sinceras e emocionantes palavras. Ele saberá quanto o estimo bem como às pessoas a que está mais diretamente vinculado. Compreendo que a lembrança perdurará para sempre,mas as suas coragem e inteligências ajudarão a ir, gradualmente, ajudando a afastar as tão más recordações.Força, amigo. Abraço de sincera, de efetiva amizade. C.Leal

cecilia barreira disse...

Abraço

Anónimo disse...

Eu não sei se é culpado ou inocente e não sei por uma razão, quero verdadeiramente acreditar que seja inocente, mas não posso, não posso inteiramente. E não posso porque o absurdo de ter visto um presidente da república, um primeiro ministro que tinha sido ministro da justiça, um presidente da assembleia da república e um procurador geral da república a rasgar um dos pilares da democracia, a separação de poderes e a abalroar a justiça, a declararem que esta não importa não me dão garantias que tenha existido justiça. Compreendo a tremenda justiça que foi para si se realmente é, como quero acreditar inocente, mas para o país o golpe que sofreu nessa altura provocou estragos irreparáveis

Rui Moura disse...

Põe 'absurdo' nisso! A maldade nunca tem fim. Um grande abraço, companheiro!

Unknown disse...

lembro-me bem desse tão triste e injusto episódio e por isso aqui lhe deixo o meu humilde Respeito

Um Jeito Manso disse...


Sem mais:

https://umjeitomanso.blogspot.com/2019/05/o-meu-mea-culpa-perante-paulo-pedroso.html

Unknown disse...

Não o conheço penconheço pessoalmente mas sempre acreditei que estava inocente. Penso (sem razão?) que houve
motivos políticos.Lamento profundamente o mal que lhe fizeram. Com a elevada consiconsideração. Permita-me que o abraçe fraternalmente.